Vejam que interessante este artigo que foi publicado no UOL. É uma crítica ferrenha aos moldes atuais da web.
Críticos de sites da Web como Wikipedia e MySpace
alegam que estes estão enfraquecendo a esfera pública. Mas alguém
realmente gostaria de voltar no tempo?
James Crabtree*
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Gordon
Brown recentemente descreveu o MySpace, site da Web no quais
adolescentes escrevem sobre si mesmos, como o maior clube de jovens do
Reino Unido. Mark Zuckerberg, o fundador de 23 anos do Facebook, que
consiste em perfis do cotidiano de seus usuários, recebeu uma oferta de
US$ 1 bilhão (em torno de R$ 2 bilhões) por sua empresa no ano passado.
E neste julho, o YouTube, que abriga milhões de vídeos amadores banais,
terá mais acessos no Reino Unido do que a BBC Online. Justo quando
parecia que tínhamos emergido da bolha da Internet, a revolução
tecnológica voltou. Bem-vindo à Web 2.0.
A expressão "Web 2.0"
data de uma famosa sessão de brainstorm no Vale do Silício em 2004
liderada por Tim O'Reilly, um empresário cultuado da Costa Oeste. Os
participantes, observando os novos tipos de organização que emergiam
dos destroços do desastre das pontocom, começaram a falar de uma
segunda fase da expansão da Internet. Mais tarde, O'Reilly tentou
deixar claro ao que se referia. A Web 2.0, entre outras coisas, "confia
nos usuários como co-desenvolvedores", enquanto "equilibra a grande
demanda com o auto-serviço". Em outras palavras, a primeira geração de
empresas da Internet tendiam a vender coisas, enquanto as da Web 2.0
tendem a ajudar as pessoas a criarem e compartilharem idéias e
informação.
Entra Andrew Keen, empresário de Internet britânico
que mora na Califórnia e cujo novo livro, "The Cult of the Amateur" (O
Culto do Amador), critica ferozmente a Web 2.0 e seus acólitos.
Interessante notar que foi O'Reilly que originalmente inspirou a
abjuração de Keen. A cada ano, O'Reilly dirige um encontro exclusivo,
chamado "FOO Camp" (das iniciais em inglês de amigos de O'Reilly). Keen
foi convidado um ano e descreve o evento: "Uma viagem de acampamento de
dois dias com duas centenas de utopistas do Vale do Silício. Com um
saco de dormir em punho e mochila nas costas, marchei até o
acampamento; dois dias depois, sentindo enjôo, saí de lá descrente".
Keen
não está sozinho em sua falta de confiança na turma da Web 2.0. Em um
ensaio muito discutido publicado no site Edge, no ano passado, o
ativista digital Jaron Lanier argumentou contra o "maoísmo digital" e o
"aumento alarmante da falácia do coletivo infalível" na Internet. E
Andrew Orlowski, outro jornalista britânico que mora no Vale do
Silício, fez de sua coluna no site de notícias em tecnologia "The
Register" uma cruzada pessoal contra pessoas como O'Reilly e o fundador
da Wikipedia, Jimmy Wales.
Então, será que estamos no início de
uma segunda reação às pontocom? Talvez. Mas mesmo que tal movimento
exista, Keen é um líder fraco. Suas muitas reclamações contra a
Internet incluem as habituais histórias horríveis de obscenidade, roubo
de identidade, jogatina e besteiras, mas ele se concentra
desproporcionalmente nesses piores excessos dos entusiastas digitais.
Já
Keen tem duas idéias que devem ser levadas a sério. Uma envolve os
"amadores" do título. Ele cita Neil Postman, cujo famoso livro "Amusing
Ourselves to Death" (Divertindo-nos até a Morte, 1985) pergunta qual
futuro tecnológico deve nos assustar mais: a visão de Orwell de uma
sociedade de vigilância ou o temor de Huxley da docilidade universal?
Keen preocupa-se com ambos, mas ainda mais com um terceiro cenário: um
futuro no qual todos participam on-line e poucos tem algo a dizer. Ele
chama de "ditadura de idiotas".
A Wikipedia é o melhor exemplo
desse amadorismo e um bicho assustador comum dos críticos da Web 2.0. O
ensaio sobre o "maoísmo digital" de Lanier, por exemplo, começa com uma
reclamação sobre sua própria resenha (que diz erroneamente que era
diretor de cinema). Assim como Keen teme a marginalização do
especialista, Lanier acha que a crença no poder da "mente de colméia"
coletiva destruirá tanto a autoria quanto a responsabilidade. Isso, por
sua vez, danificará seriamente nossa compreensão do conhecimento e da
verdade.
A segunda idéia de Keen é que esses mesmos amadores da
Internet estão enfraquecendo o respeito à esfera pública. Apesar de não
falar dessa forma, seu argumento é uma visão pós-milênio da velha
defesa da mídia como serviço público. Em meio a críticas aos blogs, sua
verdadeira admiração é por heróis da era de ouro do jornalismo -
Woodward e Bernstein, Edward Murrow, Walter Cronkite e assim por diante
- e as instituições como CBS, New York Times e BBC que os empregavam.
Ainda
assim, seus argumentos são furados. A Wikipedia é uma maravilha
moderna: uma enciclopédia gigante, gratuita, geralmente com altos
níveis de precisão, compilada inteiramente por voluntários. Assim é com
outros sites montados por dados agregados pelos usuários. Sim, o
amadorismo online tem seus limites. Mas parece falta de educação alegar
que um conjunto de sites da Web geralmente gratuitos e úteis podem ser
a causa de tantos males.
O argumento da esfera pública de Keen
tem mais mérito e ele está certo em culpar a Internet por minar os
modelos comerciais dos jornais. Mas culpar a Wikipedia e o YouTube
especificamente, em vez da ampla mudança tecnológica em geral, não faz
sentido. E culpar a Web 2.0 pela queda nos padrões jornalísticos sem
também discutir os tablóides e a televisão comercial é perverso.
Dada
a escolha, a maior parte das pessoas trocaria o acesso à mídia de hoje
por qualquer outro da história? Seria pouco razoável argumentar que a
maior parte das pessoas hesitaria em entregar seu e-mail, diminuir seu
acesso à Internet e voltar a uma era de jornalões impressos e quatro
canais de televisão. Não que a mídia de hoje seja perfeita, mas a
questão é como guardar as melhores partes do antigo mundo para não
serem minadas por YouTube, blogs e o resto.
Um blogueiro, citado
recentemente pelo blog da Irlanda do Norte Slugger O'Toole, forneceu
uma atualização clara de Marx para identificar o credo do amador online
que Keen tanto menospreza: "Os filósofos apenas interpretaram o mundo;
o ponto é reclamar sobre ele". A defesa de Keen de uma concepção de
serviço público da mídia é válida, apesar de antiquada. Mas sua análise
contrária mal direcionada o torna mais similar aos amadores online do
que gostaríamos de admitir.
* James Crabtree trabalha no governo do Reino Unido.
Fonte: www.uol.com.br
Tradução: Deborah Weinberg